Vera Marmelo
Valete
24

NOV

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22h50 - 23h50
Cine-Teatro Capitólio - Auditório

«Sou filho de emigrantes São Tomenses. Cresci pobre como a maioria dos africanos em Portugal. Éramos três famílias a viver num T2 em Benfica. Onze pessoas num espaço pequeno foi a forma encontrada de não irmos viver para os bairros degradados como muitos dos nossos familiares e compatriotas.
Cresci pobre mas feliz. O ano de 1998 foi um ano muito difícil para a minha família, o meu pai estava desempregado, sustentávamo-nos com o dinheiro que a minha mãe fazia como costureira mas que mal chegava para pagarmos a renda de casa. Acabámos por ser despejados da nossa casa em Benfica. Estive quase um ano a viver em casa da minha tia na Amora (Margem Sul) e no fim de 1998 vim viver com os meus pais para a Damaia (Amadora).
Nessa altura o Hip Hop já tinha entrado na minha vida. Ouvia muito rap americano mas o que mais me fascinava era mesmo o rap cantado em português. Seguia muito o rap brasileiro com nomes como Racionais, Gabriel o Pensador e em Portugal grupos como Líderes da Nova Mensagem, General D, Mind Da Gap, Dealema, Xeg, Sanryse, Sam The Kid etc.
Comecei a rimar em 97. Conheci o Vinagre e o Sam the Kid e, em casa do Sam, gravámos uma maquete que chegou às mãos do DJ Bomberjack. O Bomber era conhecido por lançar mixtapes que já faziam algum furor na comunidade Hip Hop. Convidou-me para uma dessas mixtapes “Reencontro do Vinyl” vol. 1 e foi incrível para mim ver-me a rimar junto de nomes que admirava tanto como os Da Weasel, Sanryze, Nexo, etc.
As pessoas gostaram do meu flow e a partir daí comecei a fazer parte com regularidade das mixtapes do DJ Bomberjack e também do DJ Cruzfader.
Em 2002 lancei o meu primeiro álbum ‘Educação Visual’, em edição de autor. Com muitas dificuldades consegui pô-lo cá fora graças a dinheiro emprestado de amigos. A aceitação foi incrível, consegui pagar as minhas dívidas e ainda ter um bom lucro para lançar a compilação ‘Poesia Urbana’ em 2004 com grandes nomes do Hip Hop nacional.
Em 2006 lanço o meu segundo álbum ‘Serviço Público’, um trabalho mais escuro e combativo que o meu anterior mas que chegou ainda a mais gente e fez o meu nome chegar com mais força a países como Angola, Moçambique e Brasil.
Entre 2009 e 2012 fiz muitas participações, dei concertos, um deles inesquecível para mim, no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, no ‘Festival Blue’.
Entrei também no projeto “Diversidad” uma compilação que incluía vários rappers, produtores e DJ’s europeus de renome, o que me permitiu também fazer uma tournée europeia e conhecer países como França, Bélgica, Holanda e Suíça.
No fim de 2012 a agência Magicbox convidou-me para um concerto em nome próprio no Campo Pequeno, em Lisboa. Foi um momento muito especial. Provavelmente ainda não estávamos preparados para dar um concerto num espaço tão grande e de tanta responsabilidade. Mas tudo correu bem melhor do que podíamos imaginar, o Campo Pequeno estava cheio, o público foi incrível e ajudou-nos a superar toda a nossa inexperiência para aquele tipo de espaços.
Os anos seguintes 2015 e 2016 foram muito difíceis. Foi diagnosticado ao meu pai um tumor no fígado. Atravessei com ele essa luta penosa contra o cancro que ele acabou por perder. Faleceu em Abril de 2016.
Fiz o meu luto, bem mais longo e doloroso do que poderia imaginar, mas serviu muito para refletir. Nos últimos dias de vida, meu pai vivia numa inquietude extrema por perceber que iria morrer e que, possivelmente, não tinha deixado no mundo e nas pessoas o marco que gostaria. Inquieto por não saber ao certo o que as pessoas iriam guardar dele depois da morte.
Para o meu pai, perto da morte o mais importante era perceber o seu legado. Marcou-me imenso viver com o meu pai os seus últimos dias. E realmente o legado é o mais importante, é a única coisa de “valor” que deixamos quando partimos. Em Homenagem ao meu pai abri a Associação Periferia. Um centro de apoio a jovens, desprotegidos, situado na Damaia. Quero influenciar positivamente a minha zona de todas as formas possíveis. Acredito mais do que nunca na frase “O Mundo muda a cada gesto teu” porque um milhão de problemas podem ser facilmente resolvidos se as pessoas se organizarem e canalizarem a sua energia para melhorar a comunidade onde vivem.»

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